
A comunidade internacional traiu a população de Gaza ao não defender as suas palavras com uma acção eficaz para garantir o fim do bloqueio israelita, que está a impedir as tarefas de reconstrução e recuperação, de acordo com 16 grupos humanitários e de direitos humanos num novo relatório, designado por “Failing Gaza: No rebuilding, no recovery, no more excuses”. A informação foi publicada no primeiro aniversário do começo da ofensiva militar israelita em Gaza.
Segundo o relatório, as autoridades israelitas só autorizaram a entrada em Gaza a 41 camiões com material de construção desde o fim da ofensiva em meados de Janeiro, informam os grupos de direitos humanos, entre os quais a Amnistia Internacional, Christian Aid, Medical Aid for Palestinians, Mercy Corps e Oxfam International. Só as tarefas de reconstrução e reparação de casas requerem milhares de carregamentos de material de construção, dizem.
Apenas se reparou uma pequena parte dos graves danos causados pela ofensiva israelita em casas, infra-estruturas civis, serviços públicos, quintas e negócios, porque à população civil, e às agências de ajuda humanitária e da ONU, está proibida a importação de materiais como cimento e vidro, excepto em casos muito pontuais, assinala o relatório.
Cortes diários de energia e água
Os autores do relatório afirmam que o bloqueio causou também frequentes cortes de energia eléctrica, gás e água, o que afectou gravemente a vida quotidiana da população e a saúde pública. Partes da rede eléctrica de Gaza foram bombardeadas durante o conflito e requerem reparações urgentes que, quase um ano depois, ainda não foram autorizadas. Isto, somado ao facto de Israel continuar a restringir o consumo de combustível industrial a Gaza, significa que 90% da população sofre cortes diários de energia durante períodos entre 4 e 8 horas.
Os cortes de energia também produzem interrupções diárias do consumo de água, além de impedir a reparação das canalizações e nos depósitos nos telhados, porque Israel não considera que os materiais e as peças sejam de consumo humanitário básico, pelo que impede a sua entrada na aplicação do bloqueio. Como consequência da perda de pressão a água contaminada do solo infiltra-se nas canalizações. Juntamente com o mau estado crónico do sistema de abastecimento, a má qualidade da água é motivo de grande preocupação para as organizações de ajuda humanitária em Gaza, onde a diarreia é causa de 12% da mortalidade juvenil.
O bloqueio, que começou em Junho de 2007 quando o Hamas tomou controlo da Faixa de Gaza, aumentou significativamente a pobreza, o que contribuiu para que 8 em cada 10 pessoas dependam de alguma forma de ajuda. Comércios e quintas viram-se obrigados a fechar as portas e a despedir trabalhadores. Uma proibição quase absoluta das exportações afectou terrivelmente os agricultores, agravada por uma ofensiva militar que arruinou 17% das terras de cultivo, assim como as estufas e dispositivos de rega, e inutilizou cerca de 30% de terreno transformando-o em zonas de segurança intransitáveis, ampliadas pelo exército israelita no final da ofensiva.
Um castigo colectivo para a população
No relatório destes grupos de direitos humanos argumenta-se que, se Israel tem a obrigação de proteger os seus cidadãos, as medidas que adopta para esse fim devem ajustar-se ao direito internacional humanitário e ao direito internacional dos direitos do homem. Ao aplicar este bloqueio, Israel viola a proibição do castigo colectivo que está estabelecido no direito internacional humanitário.
Os grupos de direitos humanos pedem a Israel que ponha fim ao bloqueio. E afirmam o seguinte: “A população de Gaza foi traída pela comunidade internacional, que pode e deve fazer muito mais para acabar com este bloqueio ilegal e inumano”. Pedem à União Europeia, por exemplo, que adopte medidas imediatas de maneira concertada para garantir o levantamento do bloqueio.
Os autores do relatório pedem aos ministros dos Assuntos Externos europeus e à nova alta representante da União Europeia para a Política Exterior, Catherine Ashton que visitem Gaza para ver com os seus próprios olhos os efeitos do bloqueio na população. Agora que começou o Inverno, garantir a abertura imediata das fronteiras para que possam entrar os materiais de construção destinados à reparação de casas e infra-estruturas civis seria uma passo importante para o final do bloqueio, afirmam as organizações.
Janet Symes, directora da Christian Aid para a região do Médio Oriente, comenta: “Já não é suficiente que a comunidade internacional expresse a condenação do bloqueio. É hora de permitir que os seus habitantes reúnam os pedaços dos destroços da sua vida e comecem a recompor-se. Não pode haver mais desculpas por parte da comunidade internacional”.
Jeremy Hobbes, director executivo da Oxfam International, assinala que as potências mundiais “defraudaram, e traíram, os cidadãos de Gaza. Apertaram as mãos e emitiram declarações, mas apenas adoptaram medidas efectivas para tentar mudar uma política nociva que impede a reconstrução e a recuperação pessoal e económica”. “Por outro lado, o Hamas e outros grupos armados palestinianos devem manter o actual estado de tréguas e deter com carácter permanente o lançamento indiscriminado de rockets sobre Israel”.



