Será que as desordens da vida privada de um político o incapacitam para estar num governo? Pois, depende: se o nome for Sílvio Berlusconi, a sua conduta frívola é sinal inequívoco da sua perigosidade política; se o nome for Frédéric Miterrand a sua “vida” de turista sexual é apenas um erro de um homem de talento e, por isso, não é motivo de demissão como ministro da cultura. Pelo menos esta é a análise de alguma da imprensa europeia.
Estes mesmos meios não deixam de atacar Berlusconi, não pela sua gestão política, mas pelos seus devaneios de playboy e respectivas diversões privadas. A vida privada de Berlusconi converte-se assim num assunto público. Há que reconhecer que o político italiano também se põe a jeito. É verdade que é rico e insolente. Mas durante meses a imprensa mais crítica de Berlusconi não parou de falar nas famosas festas na quinta da Sardenha num ambiente de luxo e frivolidade, de convites a mulheres jovens, de ofertas, de gravações feitas por uma prostituta… como se estivesse em perigo não só a democracia como a saúde moral do país.
Seria de esperar que estes mesmos meios reagissem com a mesma indignação ao surgir o caso Miterrand. O Ministro da Cultura, que já tinha defendido sem reservas o cineasta Polanski, vê difundido pelos meios de comunicação o que ele próprio confessou em “La Mauvaise vie”, novela de inspiração autobiográfica publicada em 2005. Onde reconhece o seu turismo sexual na Tailândia à procura de rapazes jovens: “Todos estes rituais de feira de efebos, de mercado de escravos, excitam-me”. Miterrand mostra aí as suas contradições, o seu conflito entre desejo e culpa, a sua atormentada vivência do sexo.
No fragor da polémica, clarificou que esses efebos eram jovens, mas não menores, e que era uma relação consentida. Mas também reconhecia no seu livro: “O dinheiro e o sexo, estou no coração do meu sistema; o que ao fim ao cabo funciona, porque sei que não me vão acusar”. Assegura também que condena o turismo sexual e que não se pode confundir homossexualidade e pedofilia. Portanto, não vê motivos para se demitir.
E o mais curioso é que encontrou uma compreensão por parte dos meios que habitualmente fazem gala de um exacerbado sentido crítico. Sim, reconhece-se que o turismo sexual com jovens de um país pobre é uma coisa “feia”, é um “erro”, mas não um crime.
Caça ao homem
Uma reacção típica é assinada pelo director do Le Monde, Eric Fottorino, que termina o seu editorial dizendo: “O livro era conhecido? Sim. Miterrand cometeu alguma violação? Não. A homossexualidade é um crime, um delito? Não. Então? Pois se o Ministro da Cultura não mentiu sobre a idade dos seus partners sexuais, o linchamento de que é vítima é uma mancha sobre todos aqueles que, em nome de interesses mesquinhos, gostam de uivar com os lobos”.
Como se fosse um delito duvidar se uma personalidade desse perfil e antecedentes é a mais adequada para representar a cultura francesa no mundo. Como a homossexualidade não é crime, logo não é permitido a ninguém por em causa a conduta do ministro.
O Le Monde e outros meios que denunciavam o risco que a imprensa corria em Itália porque Berlusconi queria calar as críticas, consideram agora que os ataques contra Miterrand não são mais que uma “caça ao homem”, um “linchamento” mediático. Se o atrevimento de Berlusconi para defender a sua conduta foi qualificado de “descaramento”, as confissões de Miterrand no seu livro são consideradas como um exercício de “sinceridade”.
Além disso, o primeiro ataque contra Miterrand foi lançado por Marine Le Pen, da Frente Nacional. Mas já se sabe que qualquer coisa que tenha origem “desses lados” só pode ser desprezado por qualquer democrata, seja ou não verdade.
Imaginemos que se dissesse que alguém tinha provas de que Berlusconi se tinha dedicado ao turismo sexual, explorando jovens em países pobres, ainda que fosse com o coração destroçado. Ser-lhe-ia concedido o benefício da dúvida sobre a idade das jovens prostitutas? Seria considerado um simples erro?
Couraça mediática
É difícil explicar o desigual tratamento a não ser pela diferença que hoje se tem na imprensa pelas celebridades homossexuais. Porque, ainda que frequentemente se apresentem os homossexuais como vítimas, na realidade muitas vezes a homossexualidade funciona como protecção para justificar condutas que seriam inadmissíveis noutros casos.
Os que apoiam Miterrand argumentam que o que agora é motivo de escândalo já se sabia desde que se publicou o livro em 2005, e que na altura foi elogiado pela crítica pela sua audácia literária e desinibida análise da homossexualidade. O que me leva a duvidar se a crítica teria aceitado com a mesma complacência um caso de turismo sexual que não fosse protagonizado por um gay. Começa a ser tão propagado o hábito de enaltecer o mero facto de “sair do armário”, que pode parecer de mau tom perguntar se algo sai à luz do dia sobre alguém é porque existem boas razões para este se envergonhar. Miterrand é um homossexual que nunca ocultou a sua condição. A sua escolha por Nicholas Sarkozy foi feita, e ninguém duvida disso, pelo seu apelido e pela sua orientação sexual, como exemplo de uma política aberta do presidente. Mas quem aceita um cargo político deve aceitar a crítica, assim como se alguém conta as suas intimidades num livro, também deve estar aberto às reacções dos leitores. A política não é um passeio turístico.
Vasco
Há 1 semana




