Quarta-feira, Outubro 21, 2009

La Mauvaise Vie... la buona stampa

Será que as desordens da vida privada de um político o incapacitam para estar num governo? Pois, depende: se o nome for Sílvio Berlusconi, a sua conduta frívola é sinal inequívoco da sua perigosidade política; se o nome for Frédéric Miterrand a sua “vida” de turista sexual é apenas um erro de um homem de talento e, por isso, não é motivo de demissão como ministro da cultura. Pelo menos esta é a análise de alguma da imprensa europeia.

Estes mesmos meios não deixam de atacar Berlusconi, não pela sua gestão política, mas pelos seus devaneios de playboy e respectivas diversões privadas. A vida privada de Berlusconi converte-se assim num assunto público. Há que reconhecer que o político italiano também se põe a jeito. É verdade que é rico e insolente. Mas durante meses a imprensa mais crítica de Berlusconi não parou de falar nas famosas festas na quinta da Sardenha num ambiente de luxo e frivolidade, de convites a mulheres jovens, de ofertas, de gravações feitas por uma prostituta… como se estivesse em perigo não só a democracia como a saúde moral do país.

Seria de esperar que estes mesmos meios reagissem com a mesma indignação ao surgir o caso Miterrand. O Ministro da Cultura, que já tinha defendido sem reservas o cineasta Polanski, vê difundido pelos meios de comunicação o que ele próprio confessou em “La Mauvaise vie”, novela de inspiração autobiográfica publicada em 2005. Onde reconhece o seu turismo sexual na Tailândia à procura de rapazes jovens: “Todos estes rituais de feira de efebos, de mercado de escravos, excitam-me”. Miterrand mostra aí as suas contradições, o seu conflito entre desejo e culpa, a sua atormentada vivência do sexo.

No fragor da polémica, clarificou que esses efebos eram jovens, mas não menores, e que era uma relação consentida. Mas também reconhecia no seu livro: “O dinheiro e o sexo, estou no coração do meu sistema; o que ao fim ao cabo funciona, porque sei que não me vão acusar”. Assegura também que condena o turismo sexual e que não se pode confundir homossexualidade e pedofilia. Portanto, não vê motivos para se demitir.

E o mais curioso é que encontrou uma compreensão por parte dos meios que habitualmente fazem gala de um exacerbado sentido crítico. Sim, reconhece-se que o turismo sexual com jovens de um país pobre é uma coisa “feia”, é um “erro”, mas não um crime.

Caça ao homem

Uma reacção típica é assinada pelo director do Le Monde, Eric Fottorino, que termina o seu editorial dizendo: “O livro era conhecido? Sim. Miterrand cometeu alguma violação? Não. A homossexualidade é um crime, um delito? Não. Então? Pois se o Ministro da Cultura não mentiu sobre a idade dos seus partners sexuais, o linchamento de que é vítima é uma mancha sobre todos aqueles que, em nome de interesses mesquinhos, gostam de uivar com os lobos”.

Como se fosse um delito duvidar se uma personalidade desse perfil e antecedentes é a mais adequada para representar a cultura francesa no mundo. Como a homossexualidade não é crime, logo não é permitido a ninguém por em causa a conduta do ministro.

O Le Monde e outros meios que denunciavam o risco que a imprensa corria em Itália porque Berlusconi queria calar as críticas, consideram agora que os ataques contra Miterrand não são mais que uma “caça ao homem”, um “linchamento” mediático. Se o atrevimento de Berlusconi para defender a sua conduta foi qualificado de “descaramento”, as confissões de Miterrand no seu livro são consideradas como um exercício de “sinceridade”.

Além disso, o primeiro ataque contra Miterrand foi lançado por Marine Le Pen, da Frente Nacional. Mas já se sabe que qualquer coisa que tenha origem “desses lados” só pode ser desprezado por qualquer democrata, seja ou não verdade.

Imaginemos que se dissesse que alguém tinha provas de que Berlusconi se tinha dedicado ao turismo sexual, explorando jovens em países pobres, ainda que fosse com o coração destroçado. Ser-lhe-ia concedido o benefício da dúvida sobre a idade das jovens prostitutas? Seria considerado um simples erro?

Couraça mediática

É difícil explicar o desigual tratamento a não ser pela diferença que hoje se tem na imprensa pelas celebridades homossexuais. Porque, ainda que frequentemente se apresentem os homossexuais como vítimas, na realidade muitas vezes a homossexualidade funciona como protecção para justificar condutas que seriam inadmissíveis noutros casos.

Os que apoiam Miterrand argumentam que o que agora é motivo de escândalo já se sabia desde que se publicou o livro em 2005, e que na altura foi elogiado pela crítica pela sua audácia literária e desinibida análise da homossexualidade. O que me leva a duvidar se a crítica teria aceitado com a mesma complacência um caso de turismo sexual que não fosse protagonizado por um gay. Começa a ser tão propagado o hábito de enaltecer o mero facto de “sair do armário”, que pode parecer de mau tom perguntar se algo sai à luz do dia sobre alguém é porque existem boas razões para este se envergonhar. Miterrand é um homossexual que nunca ocultou a sua condição. A sua escolha por Nicholas Sarkozy foi feita, e ninguém duvida disso, pelo seu apelido e pela sua orientação sexual, como exemplo de uma política aberta do presidente. Mas quem aceita um cargo político deve aceitar a crítica, assim como se alguém conta as suas intimidades num livro, também deve estar aberto às reacções dos leitores. A política não é um passeio turístico.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Tolerância total para Polanski

O mundo do cinema colocou-se totalmente ao lado de Roman Polanski, reclamando a sua liberdade. Na petição assinada por 138 cineastas – Woody Allen, Pedro Almodovar, Martin Scorsese, David Lynch e muitas outras celebridades – fica a impressão que Polanski, de 76 anos, foi detido pelas suas ideias e não pelos seus actos. Ninguém recorda a origem da sua detenção, a violação em 1977 de uma rapariga de 13 anos, depois de a ter drogado, culpabilidade que reconheceu perante o juiz de Los Angeles, ainda que depois tenha fugido antes que se pronunciasse a sentença.

É verdade que o castigo de um delito perde bastante a sua efectividade e o seu sentido depois de 32 anos. A prescrição teve sempre o seu lugar no Direito. O tempo tem uma influência decisiva na vida do homem, também na esfera da extinção de direitos e responsabilidades. As pessoas mudam. O castigo tem um valor exemplar no momento, mas não passados 32 anos. Ainda mais se, como no caso de Polanski, a vítima tenha perdoado ou chegado a um acordo com o agressor, e não queira voltar a ver-se envolvida em trâmites judiciais. Sendo assim, há bons motivos para dar por encerrado o caso.

Mas estes bons motivos não têm nada a ver com os invocados na declaração dos cineastas de apoio a Polanski. Os assinantes da petição manifestam o seu “repúdio” e a sua “consternação” perante a detenção e consideram um “erro policial” que o cineasta tenha sido detido quando ia participar no Festival de Cinema de Zurich para receber uma homenagem. Como se a execução de uma ordem de procura e captura emitida por um juiz americano fosse um erro policial.

Dá impressão que o que estava em jogo era a liberdade de expressão, pois argumentam que “os festivais de cinema no mundo inteiro permitiram sempre mostrar as obras e a livre circulação dos cineastas”, “inclusive quando certos Estados se queriam opor”. Mas Polanski não foi detido por nada que tenha a ver com a 7ª arte, mas sim por actos que não são permitidos em qualquer Estado. E nem os Estados Unidos, nem a Suíça estão nas mãos de regimes ditatoriais.

Como supremo argumento os colegas afirmam que Polanski é “um artista de renome internacional” que hoje em dia se vê ameaçado de extradição e de privação de liberdade. Tudo isto demonstra a vaidade de um elitismo irresponsável, em virtude do qual a um artista não se pode aplicar os mesmos critérios jurídicos que ao mais comum dos mortais.

Desde logo, se tivessem sido aplicados, Polanski já teria sido detido há muitos anos atrás, pois a ordem de busca e captura já data de 1978. Por isso, em vez de perguntar porque foi detido agora há que perguntar porque razão o governo de França – onde reside – nunca fez nada para o levar perante a justiça quando o delito tinha acabado de ser cometido. Ser um reputado realizador de cinema justifica um indulto sem quaisquer consequências?

E se fosse um padre

O mínimo que podemos dizer é que Polanski tem sorte de ser um cineasta famoso. Imaginemos que tivesse sido um padre – ou melhor, um bispo, para nos mantermos ao mesmo nível – acusado de abusos sexuais sobre um menor nos Estados Unidos. Quando em 2002 estalou o escândalo dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes, a maioria dos casos que na altura saíram à luz pública tinham sido perpetrados nos anos 70, na mesma época do delito de Polanski, com adolescentes de idade similar à vítima do cineasta. Mas nessa ocasião ninguém disse que era “uma história antiga que já não tem sentido”, como afirmou agora o ministro da cultura francês, Frédéric Miterrand. Pelo contrário, houve satisfação pelo facto de os culpados pagarem pelo seu delito. “Tolerância zero” era o lema.

Se Polanski fosse um padre ninguém o teria desculpado com argumentos do género de ter tido uma infância trágica ou por ter obtido o perdão da vítima, como se disse a propósito do realizador polaco. Nem se teria desvalorizado a importância do facto qualificando-o como “erro de juventude” (um jovem de 44 anos!!!).

Se se tratasse de um padre o facto de a Igreja não ter reagido, ter-se-ia interpretado sem dúvida como um sinal de querer esconder o escândalo em vez de se preocupar pela vítima. Mas se é o próprio Estado francês quem fecha os olhos durante 32 nos, é apenas sinal de que a França é uma tradicional terra de bom acolhimento.

Enfim, soltando ainda mais a imaginação, pensemos o que se teria dito se 138 padres assinassem uma carta de apoio ao companheiro acusado de um delito de violação de menor, aduzindo que é inconcebível que se pretenda julgar um “clérigo de renome mundial”. O escândalo seria tal que estimularia de imediato o engenho de algum cineasta para fazer um filme sobre o caso.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Imparcialidade...



Intrigante o termo "imparcial" com que é caracterizado o relatório da ONU sobre Gaza, quando a Comissão que o assina integra pessoas como Christine Chinkin que, ainda antes de ser nomeada para esta Comissão, já tinha assinado um artigo num jornal inglês onde citava que Israel era acusada de ser a parte agressora e perpetradora de crimes de guerra. Já para não mencionar o precioso contributo de Mark Garlasco, membro da Human Rights Watch e coleccionador de propaganda Nazi.

Muito gosta a ONU de dar tiros nos pés continuamente...

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

De fugida...


Ainda volto a tempo de votar...

Domingo, Agosto 23, 2009

Uma empregada mal empregada

« Pode parecer estranho, mas para a Esquerda é desconfortável lidar com este género de ocupação profissional. Há uma relutância em admitir a sua existência. São pessoas que precisam de trabalhar, mas o seu trabalho contribui para que a burguesia se aburguese. Uma empregada lembra aos esquerdistas que nunca vai haver um mundo onde todos façam o mesmo, porque ninguém gosta de lavar a loiça. E a Esquerda tem vergonha em admitir que, por mais nobre e puro que seja o seu propósito, ainda assim precisa de alguém que lhe faça a cama. A grandiosa missão de salvar a humanidade não liga bem com as pequenas maçadas domésticas. É muito giro reformar o mundo, mas perde metade da graça se for feito com peúgas mal lavadas. Por isso é preciso (e peço desculpa se ofendo) "empregar" alguém para estas tarefas. »

José Diogo Quintela, em Uma empregada mal empregada (Pública de 23.08.2009)

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

A retórica de Obama e a liderança



Num artigo do The Wall Street Journal (16.07.09), Daniel Henninger reflecte sobre a extraordinária capacidade retórica do actual presidente norte-americano, que converteu o discurso no “seu primeiro meio de fazer política”. Para além da popularidade, alguns consideram que Obama dá aos seus discursos uma categoria desconhecida, convertendo-os praticamente no “acto central do seu mandato presidencial”.

Mas, assinala Henninger, “Obama não é o Orador-chefe da nação. Não é um senador e a fase de candidato já lá vai. É o presidente. Os discursos importantes do presidente são distintos de qualquer outro. Este alto cargo impõe exigências que vão mais além do poder hierárquico. A inspiração importa, mas o cargo também exige actos de liderança. As palavras de um presidente americano devem conectar-se com algo mais que o puro sentimento e a eloquência. No entanto, por diversas vezes os grandes discursos de Obama parecem estar conectados unicamente com os seus interessantes pensamentos sobre qualquer que seja o tema”.

Um dos exemplos citados pelo analista é o do discurso de Obama na sua viagem à Rússia, onde afirmou que um compromisso entre os Estados Unidos e esse país por um mundo sem armas nucleares seria o “fundamento moral e legal” para convencer os ‘canalhas’ deste mundo a fazer o mesmo. “Mas que virá depois do fundamento moral?”

Algo semelhante sucedeu com as suas palavras no Cairo. Qualquer líder de uma nação islâmica não saberia que conclusão extrair do seu discurso. “Se fala como presidente, a audiência tem direito a esperar que essas grandes declarações sigam actuações políticas concretas”. Henninger conclui que, com a excepção da saúde, onde há propostas concretas da presidência, “existe uma desconexão entre a magnitude das ideias e as acções de Obama e, por vezes, entre as ideias com a realidade”.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Roda dos expostos



Parece que lá para os lados germânicos, se discute acaloradamente a actual existência da medieval "Roda dos Expostos"... no fundo trata-se de locais que permitem a possibilidade de colocar bebés anonimamente para assim se impedir o seu abandono com consequências fatais.

Vantagens: o bebé não morre. Óptimo!
Desvantagens: resolve-se a causa do problema? Não.

E a "roda" lá vai existindo desde o século XII... e nós, cá vamos progressivamente andando com soluções medievais.